Todo mundo tem uma amiga que cortou o glúten ou a lactose da alimentação, assim, sem mais nem menos, e anda por aí se gabando de ter diminuído alguns quilinhos na balança.

Ou ainda uma que se encontrou com a dieta da proteína; uma que jura que a da sopa funciona; outra que se acaba de comer em uma semana e se entope de suco detox na outra.

Mas será que todo mundo está mesmo preocupado com a alimentação – e buscando referência de qualidade ou acompanhamento médico para isso? Ou este monte de barriga chapada em capa de revista está nos fazendo ceder aos modismos?

Foi observando essa onda fitness tomar força que uma redatora publicitária de 28 anos do interior de São Paulo criou o perfil Palmirevil, que até o fechamento deste post tinha quase 14 mil curtidas.

Ela prefere não dizer o seu nome com medo de ser xingada de ‘comedora de macarrão’, me disse bem-humorada em nossa conversa. 

Conta também que deu uma pausa nas postagens justamente porque muitas pessoas não entenderam o tom da ironia utilizado pela página.

Utilizando-se da imagem da cozinheira Palmirinha (musa máxima da comida de verdade!), ela cita frases como: “Hambúrguer de bife vegetal em pó. Que caceta é essa?”; ou “É tanto chá verde que já mijou a Cantareira”. 

Fiquei curiosa: seria Pamirevel uma nutricionista? Uma pesquisadora do tema? Uma ativista em prol dos hábitos alimentares saudáveis?

Não, ela não é nada disso. É apenas uma pessoa que gosta de se informar sobre o assunto e encontrou um jeito divertido de tirar sarro dessa loucura pela alimentação e pelo corpo perfeitos. Veja a seguir os principais trechos do nosso bate-papo. 

Com que objetivo você criou este perfil?
Foi a junção de várias coisas. Durante um tempo eu fui observando essa onda ‘fit’ ganhar força e a princípio eu achei que era uma coisa realmente legal. As pessoas tomando consciência da importância de se alimentar bem, de conhecer outros alimentos que não estão habituados, de fazer mais exercício. 

Depois eu percebi que a tendência das pessoas não era descobrir o que funcionava bem pra elas ou não, era seguir alguém. Isso acontece até hoje, zilhões de postagens em perfis no Instagram com fotos de antes e depois e a sugestão de seguir o que a pessoa da foto fez.

E qual foi o maior ‘estalo’ neste processo?
O ápice foi que uma conhecida começou a postar sua rotina ‘fit’ no Instagram e todo dia eu via que ela fotografava duas tapiocas com ovo, a famigerada ‘crepioca’, recheada com coisas variadas e ela chamava de café da manhã light. Eu pensava todo dia: amiguinha, não. Tá errado. Ovo inteiro é calórico. Tapioca é calórica. Esse recheio é calórico. Isso não é pra você.

No dia seguinte eu falei uma besteira meiga em uma conversa com uma amiga e mandei um: ‘é a Palmirinha do mal falando’.  Cinco minutos depois eu estava fazendo a página.

“Acho que dentro de todo esse contexto podemos dizer que o grande problema das pessoas é o exagero. Ou elas estão se entupindo de fast food e açúcar, ou estão cortando de vez o glúten, o açúcar e a lactose”

Você acha que as pessoas estão pirando quando o assunto é alimentação?
Acho que sim. Gente que nunca teve problema com lactose e glúten evitando. Pra quê? Se você ficar um ano sem comer glúten e lactose, o que vai acontecer nos próximos anos? Você nunca mais na sua vida vai tomar leite? Nunca mais vai comprar o pão francês que seu pai buscou pra você na padaria? Nunca mais vai comer um brigadeiro de verdade? Nunca mais vai tomar um cafezinho com o bolo que sua mãe fez? 

Todo mundo tem direito de começar uma dieta pra alcançar um objetivo e ela pode até ser restritiva por um tempo, mas o que eu vejo são pessoas fazendo cara de asco pra coisas que sempre fizeram parte da nossa rotina e que são saudáveis. Isso pra mim é triste.

Você diria que a repercussão da página foi mais positiva do que negativa?
Foi mais positiva, sem dúvidas.

Por que a Palmirinha?
Porque eu sou fã dela, de verdade. Minha mãe é uma pessoa que cozinha muito bem e que adora programas de culinária. Ela também é fã da Palmirinha.

Você chegou a ter algum contato com ela, ou algum problema por usar a imagem?
De forma alguma! Eles não chegaram a falar comigo. Não sei se é infelizmente ou felizmente.

Por que decidiu parar com as postagens?
Eu não apaguei a página, parei com as postagens por enquanto. A cada postagem eu acompanhava os comentários, interagia, respondia, curtia. E por isso, eu também acompanhei a repercussão delas também. 

Conforme o público da página foi crescendo, percebi que uma parte das pessoas acompanhava apenas para discordar ou se ofender ou criticar. Pessoas que realmente eram intolerantes a algum tipo de comida e que ficavam tristes com os posts. 

Mães que chegavam a dizer: “nossa, meu filho é diabético e eu faço sobremesas sem açúcar com amor, sim”. Claro, que as postagens nunca foram pra esse tipo de público. Mas elas alcançam, e fora de contexto podem gerar desconforto e tristeza. E esse nunca foi meu objetivo. 

Você costuma ler/se informar sobre alimentação?
Sim, eu faço acompanhamento nutricional e frequentemente leio sobre alimentação. É difícil hoje em dia achar uma fonte segura, já que tem tanto post patrocinado na internet favorecendo as novas ‘tendências’ gastronômicas. Mas com um pouco mais de esforço dá pra saber de verdade o que você está consumindo.

Quem entre as celebridades que atuam nesta área ‘te representa’ quando o assunto é alimentação? Alguém que você admire a filosofia?
Gosto muito da Bela Gil. Fiquei encantada com a forma didática que ela ensina as coisas e como ela parece ser uma enciclopédia ambulante dos alimentos! Ela sabe tudo. 

Adoro pessoas que transparecem propriedade quando falam. E apesar das substituições loucas que ela faz, que eu mesma tirei sarro na página, como o brigadeiro fake ou o brownie de feijão, o objetivo dela é informar as pessoas. 

Para mim, a mensagem sempre é: prove se você quiser. É mais saudável, é uma alternativa, mas não tem nada de ruim em comer o brigadeiro de vez em quando, o problema é comer sempre.

Acho que dentro de todo esse contexto podemos dizer que o grande problema das pessoas é o exagero. Ou elas estão se entupindo de fast food e açúcar, ou estão cortando de vez o glúten, o açúcar e a lactose. 

Exagero é ruim das duas formas, as pessoas tem que encontrar um equilíbrio e viver bem, não viver sem.