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O que Love Story diz sobre imagem, autoestima e identidade feminina

Casal inspirado em John Kennedy Jr e Carolyn Bessette na série Love Story visto de costas

Eu não achei que me engajaria na série Love Story, baseada em fatos reais da relação de John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette. Mas não é que engajei?

Em um primeiro momento, até parece mais uma “novelinha” sobre um dos casais mais icônicos dos anos 90.

No entanto, ao passo que os capítulos vão se desenrolando, fica difícil não fazer uma reflexão maior sobre imagem, autoestima e identidade feminina.

Reuni aqui os pontos que mais me chamaram atenção. No Brasil,Love Story está disponível no Disney+; e nos Estados Unidos na plataforma Hulu. 

Love Story não é sobre ele; é sobre ela

Não há sombra de dúvidas que a aura e o carisma de John F. Kennedy Jr. são impulsionadores da trama. Isso sem falar da curiosidade em torno de tudo que rondava a família Kennedy e o movimento que isso gerava na mídia.

Ali, a cultura dos paparazzi começava a ganhar força e isso, por si só, já nos ajuda a entender como a imagem feminina passa a ser constantemente observada, julgada e construída publicamente.

Enquanto John lida com os holofotes com simpatia e certa tranquilidade, Carolyn enfrenta um verdadeiro conflito.

No início da série, ela aparece como uma mulher sofisticada, independente e segura de si. Alguém com vida própria, autoestima e opinião. Era o braço direito de Calvin Klein, numa época em que a marca ajudava a consolidar uma estética minimalista que marcou os anos 90.

Tudo ia muito bem, até ficar melhor ainda. John, o solteiro mais cobiçado de Nova York, se interessa por ela e não se deixa intimidar pelas negativas, dando início àquela dinâmica de conquista que, confesso, é gostosa de assistir.

Mas até por isso eu pensei que não ia me apegar tanto à série. Seria “apenas” mais uma love story?

Não era.

A perda de si mesma (mesmo quando tudo parece perfeito)

O plot twist da protagonista acontece justamente depois do “sim”. Quando Carolyn aceita se casar com John, a personagem começa a passar por uma transformação gradual.

E talvez nem seja spoiler dizer isso, já que estamos falando de uma história real amplamente acompanhada pela mídia.

Com o casamento, a vida do casal se torna ainda mais cobiçada. A essa altura, Carolyn já havia renunciado ao trabalho e praticamente não saía mais de casa.

Ela não suporta ter a vida constantemente exposta na TV e nos tabloides e, aos poucos, se anula.

Essa mudança, no entanto, não acontece de forma abrupta. Existe toda a narrativa romântica no meio do caminho, o que torna a série ainda mais envolvente. 

Acredito que muitas mulheres que já se anularam em um relacionamento provavelmente vão se identificar com essa trajetória. 

Aos poucos, a gente acompanha o brilho de Carolyn sumindo e sua autoestima sendo minada. A renúncia da própria vida em nome do casamento cobra um preço alto.

Outro ponto que me chama atenção é que, mesmo quando está no fundo do poço, ela segue bonita e elegante, pelo menos da forma como a série apresenta. Mas já sem aquela postura confiante dos primeiros episódios.

Ela se perde de si e parece consciente disso.

Beleza não sustenta autoestima

Sempre me interesso por analisar a forma como as personagens femininas são retratadas em filmes e séries. Sobretudo, que mensagens elas passam.

E, para mim, fica muito claro um ponto importante, que também é um dos pontos centrais do meu livro.

Beleza não sustenta, sozinha, a autoestima de ninguém.

Parece óbvio quando colocado dessa forma, mas a série praticamente desenha a queda da autoestima da Carolyn.

Quando ela tem trabalho, amigos e liberdade, se sente inteira. Quando perde tudo isso, perde também o senso de identidade e acaba sem autoconfiança; ainda que fosse uma das mulheres mais admiradas da época do ponto de vista da imagem.

Ser uma “diva” dentro do padrão de beleza não garante muita coisa quando a saúde mental e outros pilares da vida não vão bem.

Imagem, identidade e o que fica de fora

Em um mundo cada vez mais pautado pelo que é considerado ‘belo’, até uma obra de ficção ajuda a perceber como imagens são construídas a partir de recortes que nem sempre refletem a realidade.

Essa ideia que se constrói, seja de um casal, seja de uma mulher, nunca é completa. Ela sempre deixa alguma coisa de fora.

No caso de Carolyn, a série sugere justamente isso. Uma imagem que se mantém impecável por fora, enquanto a pessoa por trás dela vai se apagando.

E talvez seja por isso que essa história continua tão atual.

No fim, não é só sobre amor

Love Story pode até começar como uma história de amor. Mas ela fala sobre imagem, renúncia e, especialmente, sobre o risco de se afastar de si mesma.

Talvez seja justamente aí que a série mais acerte.

Se esse tipo de reflexão te interessa, é exatamente sobre isso que eu escrevo no Além do Like: sobre imagem, comparação e as expectativas que moldam a forma como a gente se enxerga. 

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