Os ultraprocessados nas escolas são hoje uma realidade em muitos países, especialmente nos Estados Unidos
Quando eu era criança, eu adorava a hora da merenda. Lembro que no “prézinho” tinha polenta, sopa de feijão e outras delícias que a gente começava a desejar antes mesmo de bater o sinal, porque o cheiro que vinha da cozinha era irresistível. Sim, porque a maioria das escolas no Brasil têm cozinha própria, o que nos aproxima mais da comida caseira e nos afasta dos ultraprocessados.
Aqui nos Estados Unidos, a coisa é um pouco diferente. Ainda que a Califórnia seja reconhecida como berço da comida orgânica e de um estilo de vida mais “natureba”, em conversas com amigos que têm filhos, vejo que a alimentação das crianças nas escolas ainda está longe do ideal.
Os ultraprocessados ainda são muito presentes na vida dos pequenos. Uma amiga reclamou comigo que outro dia chegou para buscar o filho de pouco mais de um ano no day care e o flagrou com um pedaço de pizza na mão.
Uma outra colega me enviou o cardápio escolar das suas filhas pra eu dar uma olhada. Cheeseburger, mac and cheese, corndog e sanduíches variados eram as principais estrelas do menu.
Comentei que achei curioso oferecerem leite para acompanhar a comida, e ela me disse que as filhas também estranhavam a princípio. “As meninas achavam péssimo, mas, hoje em dia, tomam o leite pra ‘completar’ a refeição quando a comida está muito intragável. Senão ficam com fome”, disse.
Essa minha pesquisa “empírica” foi confirmada em um evento que participei recentemente, no Berkeley Food Institute. O tema: o futuro do sistema alimentar escolar californiano.
Califórnia: o laboratório que os outros estados americanos estão de olho
O evento reuniu pesquisadores, formuladores de políticas públicas e profissionais que estão no “front” da alimentação escolar. O tema principal era a Assembly Bill 1264, uma lei aprovada no final de 2025 que coloca a Califórnia como o primeiro estado americano a definir, em termos legais, os ultraprocessados como prejudiciais à saúde das crianças.
O plano é retirar gradualmente os ultraprocessados das escolas até 2035. Hoje, estima-se que esses produtos representem cerca de 60% da alimentação escolar nos Estados Unidos.
Mas mudar esse cenário exige mais do que boa vontade. É preciso estrutura — cozinhas equipadas, profissionais qualificados e um sistema capaz de produzir comida de verdade em escala. Também exige romper a dependência das grandes indústrias, que oferecem soluções rápidas, baratas e padronizadas.
Nesse sentido, a aproximação com produtores locais e pequenos negócios aparece como um caminho importante. Algo que, no Brasil, já fazemos graças ao PNAE (Programa Nacional de Alimentação Infantil).
Nosso programa brasileiro é referência mundial e hoje alimenta cerca de 40 milhões de crianças. O PNAE estabelece diretrizes que priorizam a comida de verdade na maior parte das refeições e restringem a presença de ultraprocessados no cardápio.
Mas talvez um dos pontos mais interessantes esteja na forma como o programa se conecta com a economia local: pelo menos 30% dos recursos destinados à alimentação escolar devem ser usados na compra de alimentos da agricultura familiar.
Na prática, isso significa que a merenda não impacta apenas a saúde dos alunos, mas também fortalece pequenos produtores e as comunidades ao redor das escolas. É um modelo que, mesmo com desafios, mostra que é possível estruturar a alimentação escolar de outra forma.
Ultraprocessados nas escolas: um problema estrutural
A alimentação escolar é base para entendermos um pouco como funciona o abastecimento alimentar de outras camadas da população. Como a ciência já comprovou, o alto consumo de ultraprocessados está relacionado ao aumento das taxas de obesidade.
No entanto, quando se fala de obesidade ou de problemas de saúde ligados a ela, culpa-se o indivíduo, como se as pessoas fossem preguiçosas ou não priorizassem a saúde por negligência.
Só que quando o assunto é saúde pública, o buraco é mais embaixo. Os problemas são estruturais e a indústria alimentícia lucra com isso, afinal, os ultraprocessados são práticos, a maioria pronta pra comer e muitas vezes são mais baratos do que os alimentos frescos.
E nisso voltamos às escolas daqui: alguns dos painelistas explicaram que a maioria das escolas ainda não têm essa estrutura para oferecer comida caseira, então, tudo que vem pronto pra consumo acaba sendo uma solução mais prática.
Além disso, esse tipo de comida é altamente palatável. Não à toa, as crianças são um alvo tão interessante para esse mercado. Conquistar o paladar cedo é fidelizar um “cliente” no longo prazo. E a combinação entre açúcar, sal e gordura – presente na maioria destes alimentos – foi realmente pensada para levar ao binge eating, ou seja, ao consumo excessivo.
O nosso cérebro simplesmente ama essa combinação, que ativa rapidamente nosso sistema de recompensas e nos manda a mensagem: “quero mais!”.
Do cigarro ao ultraprocessado
No evento, uma das pesquisadoras falou sobre a conexão sobre a indústria do tabaco e a alimentícia, que atualmente é um dos seus principais campos de estudo.
A comparação pode parecer exagerada, mas não é nova. Há evidências de que parte da engenharia por trás dos ultraprocessados bebe na mesma fonte que, décadas antes, ajudou a tornar o cigarro tão difícil de largar.
Além disso, pare para pensar o quanto o cigarro, há algum tempo atrás, era normalizado. Era permitido fumar em locais fechados, dentro do avião, perto de criança. Tinha comercial na TV e nas novelas e filmes era algo super comum e até visto como “chique” ou cool.
A queda do consumo do cigarro só começou a acontecer quando o hábito deixou de ser tratado como escolha individual e passou a ser regulado como um problema de saúde pública.
Será que veremos algo parecido acontecer com a comida, especialmente no que diz respeito às crianças? Eu sinceramente espero que sim.
E agora?
A tentativa da Califórnia de reduzir os ultraprocessados nas escolas mostra que algo começa a mudar. Mas também deixa claro que essa transição exige tempo, investimento e mudanças estruturais profundas.
Mais do que alterar cardápios, trata-se de repensar todo um sistema.
Estar presente nesse debate, aqui nos Estados Unidos, também reforça algo que sempre me acompanhou: o orgulho da nossa cultura alimentar e dos caminhos que o Brasil já construiu nessa área.
Em alguns aspectos, já avançamos mais do que imaginamos; e essa troca entre países pode ser mais valiosa do que parece. Porque, no fundo, no fundo, a gente não escolhe sozinho.
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