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O Mito da Beleza: uma carta ao futuro, escrita há 30 anos

Acho que não tenho nem roupa para escrever sobre o livro O Mito da Beleza, esse clássico escrito por Naomi Wolf em 1991, ou seja, há exatos 30 anos. Eu já tinha ouvido falar muito sobre ele, mas só fui ler de cabo a rabo em 2019, quando foi lançada uma nova edição pelo selo Rosa dos Tempos, da editora Record. 

Estava de férias no Brasil, na casa da minha mãe, e andava com ele pra tudo quanto é canto. Enchi suas páginas de marcações. Volta e meia, tiro ele da estante pra ler alguma frase, aleatoriamente, e confirmo: esse texto está mais atual do que nunca. 

Clássicos não se tornam clássicos à toa. Além de amplo embasamento, é preciso muita sensibilidade, timing e até uma certa dose de intuição para captar incômodos universais e traduzi-los em palavras. Vale lembrar que Naomi escreveu o livro quando tinha apenas 26 anos. (vráaaa!)

90’s vibes

Na década de 90, quando O Mito da Beleza foi lançado, o ideal “dona-de-casa recatada e do lar” já havia ficado pra trás graças às conquistas do movimento feminista. A briga pelo espaço feminino no mercado de trabalho estava a pleno vapor. 

Mas quando parecia que o negócio ia ficar bom pra gente, começou a surgir um novo ideal a ser seguido – ou seja, uma nova forma de opressão: a dos padrões de beleza. 

“Como eu tinha tido a sorte de estudar a história do feminismo, percebi que, a cada geração em que houvesse um forte avanço por parte das mulheres, algum ideal surgia para sugar as energias e assim garantir que elas não progredissem mais.”

Naomi Wolf, O Mito da Beleza

Naomi argumenta que, como vivemos numa sociedade patriarcal, sempre haverá um novo mecanismo de controle para nos deixar constantemente a um passinho (ou a vários passinhos) atrás dos homens: nos cargos, nos salários, nos direitos, e, sobretudo, no que diz respeito à nossa liberdade. 

Patriarcado e a imagem feminina

Padrões de beleza sempre existiram, então não é como se Naomi tivesse inventado a roda. Mas para mim a genialidade está no fato de o livro captar o exato momento em que “o caldo entornou”. 

Ou seja, quando estes padrões realmente começaram a se tornar mais opressores e a se entranhar na vida das mulheres pouco a pouco.

Para ilustrar isso, a autora não só explora vários aspectos em que o patriarcado e a imagem feminina estão entrelaçados – trabalho, cultura, sexo, pornografia, religião, etc. – como também expõe a indústria que se criou – e cresce vertiginosamente – às custas da nossa autoestima.

“Um reduzido amor-próprio na mulher pode ter um valor sexual para alguns indivíduos, mas tem um valor financeiro para toda a sociedade.” 

Naomi Wolf, O Mito da Beleza

Viajante do tempo

Algumas coisas podem até parecer óbvias hoje, especialmente para quem tem o mínimo de conhecimento sobre feminismo. Mas levantar essas questões, naquela época, foi visionário. 

Por isso O Mito da Beleza ainda é tão contemporâneo – ele antecipa tendências super atuais como a obsessão por um corpo cada vez mais magro, a banalização da cirurgia plástica, a negação ao direito de envelhecer.

Ou seja, o mais puro suco do que a gente vê no Instagram como ideal de beleza.

Saindo uma lipo HD, fresquinha!

Considero O Mito da Beleza como uma carta ao futuro porque, na minha concepção, as coisas pioraram com o advento das redes sociais. Com um celular na mão, nossa vitrine ficou mais ampla; e o padrão, cada vez mais difícil de ser alcançado. 

O desejo por um corpo considerado esteticamente “perfeito” é alimentado a cada inocente entradinha em qualquer rede social. 

E se antes o Photoshop era apontado como o principal “vilão” por impor uma imagem inatingível, de uma mulher quase de plástico, sem estrias, celulite, ou marcas de expressão, hoje o que nos é vendido é que essa suposta “perfeição” é, sim, possível. 

É só ter coragem e bastante dinheiro: é tal de lipo HD, harmonização facial… afina daqui, preenche dali. Cada vez mais distante de uma beleza natural; cada vez mais dependente de procedimentos, produtos, dietas, “coaches”. A indústria da beleza é bilionária e, com a ajudinha das redes sociais, vai de vento em popa. 

“You don’t really understand anything until you understand who had money and who had power, and so The Beauty Myth traces how beauty ideals keep women from having money and power.”

Naomi Wolf, em entrevista à Dazed Digital 

O lado bom da rede   

Em entrevista à revista britânica Dazed Digital, publicada em agosto de 2019, Naomi fez uma análise do que mudou desde que escreveu o livro. No que diz respeito ao lado positivo das redes sociais, ela celebra o aumento da diversidade, tanto de corpos, quanto sexual. 

A escritora observa que a ampliação do espaço para a comunidade LGBTQ+ e suas críticas à heteronormatividade aumentou o questionamento em torno do patriarcado e da dominação masculina. 

Ao contrário do que possa parecer, também enxergo avanços na questão da imagem corporal, graças a movimentos como o body positivity e body neutrality; além da ampliação da conscientização sobre questões raciais e a temática da gordofobia.

É a velha história: o problema não está na ferramenta, mas sim, na forma como a usamos. 

Desmistifique a beleza

Naomi não tinha Twitter, Facebook ou Instagram em 1991 e conseguiu deixar um legado e tanto com esse livro. Seria relevante saber quantos quilos ela pesava na época em que o escreveu? Se o cabelo era liso, crespo; estava loira, ruiva, careca? Se tinha acne, se usava óculos? Se ela é alta ou baixinha? 

Evidentemente nada disso importa. Se você ainda não leu o livro, recomendo fortemente que considere encarar suas 400 e poucas páginas. Vai ficar ainda mais claro que nada disso importa mesmo

Leia no seu tempo, na ordem que quiser. Não importa como, nem quando: O Mito da Beleza é atemporal.

Agora, se não quiser ler, te convido a tentar desmistificar a beleza por conta própria: buscando mulheres mais reais para seguir, aplaudindo pessoas pelo que elas fazem para o mundo, não só pela aparência. 

É fato que redes como o Instagram, que são essencialmente baseadas em imagem, podem ser um gatilho para passarmos o dia todo nos comparando e desejando coisas ou características que não possuímos.

Mas também podemos encontrar por lá conteúdos que vão muito além de corpos malhados ou aspirações materiais – mulheres que estão ali divulgando seus trabalhos, suas pesquisas, causas, fraquezas, histórias e crenças. 

E isso não gera comparação. Gera inspiração.

Bela, abre o olho

Não tem nada de mal em apreciar a beleza, mas é bom lembrar que não viemos para o mundo para ser “enfeites”. E essa é uma das mais importantes mensagens desse livro.

Bela, abre o olho: tudo bem querer cuidar da aparência e se esforçar para se manter dentro do padrão de beleza imposto – se assim quisermos.  O problema é acharmos que a imagem é o valor mais importante que nós temos. Definitivamente não é. 

Maquiagem, skincare e look do dia podem até ser encarados como importantes formas de expressão e de autocuidado. Mas saber discernir quais hábitos/regras seguimos por que realmente gostamos, do que nos foi imposto por ser socialmente aceito, ainda é a melhor forma de se cuidar e de expressar nosso verdadeiro eu.


Referências

Livro

O Mito da Beleza
Autora: Naomi Wolf
Ano de publicação: 1991

Entrevista 

30 years on from The Beauty Mith we ask Naomi Wolf ‘What’s changed’?
https://www.dazeddigital.com/beauty/body/article/45639/1/30-years-on-from-the-beauty-myth-we-ask-naomi-wolf-whats-changed


Dica de Podcast

Aqui dois episódios do podcast Calma, Gente Horrível, que recomendo para quem já leu o livro. É uma discussão ampliada dos principais pontos abordados por Naomi Wolf nesta obra (e as meninas são ótimas!).


Foto principal: Dani Barg

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