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Precisamos normalizar o final feliz sem príncipe

Nada melhor do que uma série gostosinha para amenizar o coração do povo sofrido que sobreviveu a 2020, não é mesmo? Carente, melancólica e com saudades da família, não pensei duas vezes em dar o play na série  “Namorado de Natal”, da Netflix, e simplesmente maratonei. Essa é a típica série que nos faz esquecer do mundo lá fora. 

Toda a estética é agradável e traz um “quentinho” para o coração: a neve, os dramas familiares de fácil identificação, amigos ponta-firme e uma protagonista encantadora, daquelas que dá vontade de ser amiga.

Os personagens são carismáticos, bem escritos. Em pouco tempo, eu estava apegada a eles. Nem vi as horas passarem. A série talvez tenha cumprido seu objetivo principal: me distraiu. 

Spoiler alert

Devo adiantar que, a partir de agora, trago um spoiler gigantesco, porque embora eu tenha adorado a série, esperava mais do desfecho da personagem principal, Johanne, uma enfermeira de 30 anos que sofre pressão familiar para arrumar um namorado.

Até aí, nada de novo. Inúmeras produções giram em torno do “problema” de ser solteira nessa época do ano. Diversos diretores já encontraram formas de explorar na ficção a frase “e os namoradinho?”, que muitas ouvem de familiares, enquanto discutem a onipresença da uva passa em pratos salgados e se entopem do clássico e eterno pavê (ou pacumê?).

O tema foi abordado de forma delicada na série. O enredo gira em torno de uma Johanne cansada de viver em um mundo feito para casais – das vitrines recheadas de presentes natalinos românticos/clichezentos a amigos monotemáticos com seus problemas matrimoniais e familiares. 

Vencida pela cobrança, ela decide então lutar com unhas e dentes para conseguir um boy até o dia do Natal. Ao que tudo indica, chegar à ceia acompanhada de um macho faria a alegria da família – sobretudo da mãe – e provaria que ela não ficaria “pra titia” ou se assumiria como a eterna “solteirona” do rolê. 

Essa narrativa da cobrança, por si só, já me incomoda, porque a impressão que passa é que o maior castigo que uma mulher possa merecer é permanecer solteira. Como sou adepta do “antes só do que mal acompanhada”, não engulo. 

O tal do macho salvador

Entre idas e vindas com diversos casinhos que ela arruma via amigos, bares ou aplicativos, Johanne se diverte. Por fim, se encanta com um menino dez anos mais jovem. Digamos que ele foi eleito o “príncipe” da série, mas que, ao meu ver, não chega aos pés da nossa protagonista generosa e divertida.

Depois de muitos dramas e desencontros entre este improvável casal, o grand finale acontece. Sentada à mesa de Natal, diante da família insistente, Johanne se sente sozinha e corre atrás do novinho.

E é aí que começa o meu ranço (sim, só peguei ranço da personagem nos últimos cinco minutos da série, porque de fato ela é uma menina muito bacaninha!). 

Ela chega pra ele e solta algo como: “tenho amigos incríveis, uma família fantástica, mas me sinto completamente sozinha”. Como quem diz: “só falta você para eu ficar completa”. 

Nessa hora, minha vontade era falar pra Johanne: “Fia, vai procurar uma terapia, vai. Se tiver macho E terapia, melhor ainda. Mas cuida dessa cabecinha aí primeiro.”

Mas enfim, esse diálogo imaginário só aconteceu na minha cabeça. Foi um final bonito, reconheço, e talvez eu esteja ficando chata e problematizando algo não problematizável.

Reitero: vale a pena assistir a série, é bem leve e divertida. Mas passou da hora de termos finais mais inteligentes, que não dependam exclusivamente do macho salvador. 

É só entretenimento, relaxa aê, fia! 

De fato, nem toda produção tem o objetivo ou a obrigação de provocar grandes reflexões ou questionamentos. E acredito que essa série se encaixe nesse lugar do entretenimento mesmo. 

A ideia é nos fazer esquecer um pouquinho da realidade e mergulhar na vida de uma personagem que consegue equilibrar alguns dos mais importantes aspectos da vida, como o profissional, o social e o amoroso. Só que, quando a gente desliga a TV, percebe que esse suposto equilíbrio não existe. 

Ainda que seja somente para entreter, a ilusão do “macho salvador” que vem como a cereja do bolo de uma vida plena e equilibrada fica no nosso inconsciente. Afinal, é uma imagem que vem sendo reproduzida incessantemente por filmes, séries e novelas há muito tempo. E é aí que muita gente acaba acreditando nessa fantasia e se contentando com qualquer migalha. 

Talvez falar sobre solteirice, hoje, não seja o meu lugar de fala; estou em uma relação estável há 13 anos. Mas eu já fui solteira. E tenho plena certeza que encontrei um cara tão bacana justamente porque não procurei. Nunca tive essa ilusão do príncipe. Eu já estava completa e feliz sozinha, adorava ser solteira, então jamais aceitaria dividir minha vida com boy lixo. 

Hoje eu posso dizer que compartilhar a vida com alguém é uma dádiva. Me faz crescer como ser humano, vivenciar coisas maravilhosas. Mas depositar toda a expectativa de uma vida feliz no parceiro amoroso pode ser altamente frustrante. 

Por isso, acredito que precisamos normalizar finais felizes sem príncipe.

Felizmente, a coisa melhorou nos últimos anos na indústria do entretenimento. Hoje é possível encontrar muitos filmes e séries retratando mulheres potentes que, com ou sem chuva de arroz no final, trazem histórias altamente inspiradoras. Homem é maravilhoso, gostoso demais. Mas autoconhecimento, olha…even better.

Fica aí algumas sugestões com personagens femininos fortes, que colocam o homem como uma parte importante das nossas vidas –  não como o centro.

Séries

  • Gilmore Girls
  • Grey’s Anatomy (Shonda Rhimes é Ph.D na criação de personagens femininos fortes!)
  • Anne With E
  • A Vida e a História de Madam C.J. Walker
  • The Morning Show 

Filme

  • The Glorias (filme sobre a RAINHA Gloria Steinem)

Documentário

  • RBG: Hero. Icon. Dissenter (documentário sobre Ruth Bader Ginsburg, juíza da Suprema Corte Americana, que faleceu em 2020, depois de dedicar uma vida toda aos direitos das mulheres)

Foto principal: Home for Christmas (no Brasil: “Namorado de Natal”) | Facebook/Reprodução

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