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A gordura é uma questão feminista

“Você emagreceu”?, perguntou o porteiro do meu prédio quando nos encontramos no elevador. Incrível como apenas duas palavrinhas são capazes de acender um sorriso no meu rosto e mudar imediatamente o meu humor. Trocamos mais duas ou três frases, nos despedimos, e subi, bem contente. Mas refletindo.

É, eu perdi alguns quilinhos. Mas por que raios ainda fico tão feliz em ouvir que estou magra? Mesmo sendo uma discípula de Naomi Wolf; mesmo depois de ter corrido com os lobos… (risos). Depois de ter devorado tanto conteúdo a respeito dessa nossa “devoção” cega ao corpo. Por quê?

Uau, magra! Linda!

Quando eu trabalhava em redação, questões sobre dietas da moda e privações alimentares eram obrigatórias em entrevistas com as famosas. Fiz incontáveis matérias desse tipo. Entre elas, diversas pautas com Adriane Galisteu. 

Lembro que ela sempre falava do quanto gostava de ouvir que estava magra. “Todo mundo fala que é gostoso sair na rua e ouvir as pessoas dizerem que você está linda, e eu falo, vocês não sabem o prazer que dá ouvir ‘como você está magra’. É muito melhor”, disse, nessa entrevista aqui.

Veja bem: em nenhum momento ela estava fazendo apologia à magreza, ou sendo gordofóbica. Ela só estava descrevendo uma sensação pessoal. E tudo bem gostar de estar magra, a gente tem mesmo que buscar o peso que nos deixa feliz e confortável.

Assim como ela, também me sinto melhor quando estou com um peso mais baixo. Mas e se eu ouvisse que eu engordei? Isso seria o suficiente para abalar minha autoestima? Acredito que sim. 

É essa fragilidade que me preocupa. Afinal, nossa aparência é efêmera – a gente muda o tempo todo. Viver refém da balança é cansativo demais. 

Reconheço que melhorei muito neste quesito nos últimos anos; já fui uma pessoa bem noiada com peso. Mas o porteiro me lembrou que, por mais informada sobre este tema, por mais desconstruída que eu tente ser, ainda interpreto a palavra “magra” como um elogio. 

Por isso sempre me pergunto se o fato de eu dizer que me sinto bem quando estou mais magra é genuíno ou se me foi imposto “guela” abaixo por uma narrativa midiática que, na esmagadora maioria das vezes, associa magreza à saúde e à beleza.  

Me culpo por ficar feliz ao ouvir que estou magra. Mas me perdoo em seguida, porque sei que essa desconstrução leva tempo. Susie Orbach que o diga. 

A gordura AINDA é uma questão feminista

Quando Susie Orbach escreveu Fat is a Feminist Issue (Gordura é uma Questão Feminista, no Brasil), em 1978, ela não sonhava que seu livro ainda seria relevante 40 depois, como relatou em entrevista ao The Guardian em 2018. Ela disse:

“Ingenuamente, esperei que meu livro mudaria o mundo. Ao analisar e sugerir soluções para problemas com o corpo e com a alimentação, imaginei que eles iriam desaparecer. Mas na verdade, quando eu estava escrevendo sobre problemas de corpo e alimentação de meninas e mulheres, eu estava escrevendo sobre desigualdade também. E a desigualdade é teimosa.”

Essa desigualdade que ela menciona é a de gênero, e o livro explica o quanto nós, mulheres, estamos sempre sendo validadas pela nossa imagem. Por isso conceitos como “gorda” e “magra” ainda mexem tanto com nossa autoestima. Mas isso acontece porque a vida toda fomos – e somos – infinitamente mais bombardeadas do que os homens por “ideais” de beleza. 

Apesar do livro girar muito em torno da temática da compulsão, mesmo quem nunca teve histórico desse ou de qualquer tipo de transtorno alimentar poderá se identificar com alguns exemplos. E, sobretudo, compreender melhor o que as nossas escolhas alimentares têm a ver com nossos medos, inseguranças e traumas. 

Comer emocional 

Já naquela época, a autora falava sobre o “comer emocional”, e explicava que o que comemos, e a quantidade que comemos, representam mais do que meras escolhas. Nessas pequenas decisões sobre o que comer estão impressos, entre outras coisas, nosso estado emocional atual e até mesmo comportamentos herdados das nossas raízes familiares. É bem complexo. 

É por isso que quando eu vejo um monte de blogueira vendendo chá com sabor de cookie, eu tenho vontade de chorar. Eu gosto de chá. Mas eu quero chá com sabor de chá. E cookie com sabor de cookie. Cookie não é “do mal”, e chá não é “do bem”, só porque é chá. O segredo, como tudo na vida, está na dose. 

Susie já rejeitava essa visão reducionista de alimentos “bons” e “ruins” lá em 1978. Para quem quer entender a própria relação com a comida e com o corpo, de uma maneira mais profunda, é bom se preocupar mais com autoconhecimento do que com a porcentagem de proteína e carboidrato que vai comer na hora do almoço. É sobre isso esse livro. 

Mudou alguma coisa?

Mesmo tendo sido lançada na década de 70, essa obra ainda é atual. Eu diria até que pouco mudou de lá pra cá. Por mais que eu seja uma pessoa otimista, vejo que algumas coisas ficaram ainda piores, principalmente por conta da presença massiva das redes sociais no nosso dia a dia. 

Tem muito lucro envolvido com a nossa insatisfação. As indústrias da moda, da beleza, dos alimentos “emagrecedores”, da cirugia plástica, e até mesmo o mercado da pornografia. 

Todas essas mensagens, que recebemos muitas vezes até de forma inconsciente, somados à valorização excessiva que a nossa sociedade dá à imagem, tem nos deixado muito confusas. 

Eu gosto de estar magra por que, exatamente? É uma sensação na frente do espelho? Ou realmente me sinto mais leve, mais disposta? Fico feliz com as roupas entrando? Todas essas respostas podem sim, ser verdadeiras e relevantes pra mim. Porque o que importa, no fim do dia, é estar bem dentro do próprio corpo e com saúde mental fortalecida para lidar com tanta cobrança. 

Mas é muito difícil achar o equilíbrio entre o que de fato nos faz bem, e o que absorvemos inconscientemente por pressão estética. A única saída que eu vejo é o conhecimento. Quanto mais entendemos do sistema patriarcal que lucra em cima das insatisfações das mulheres, mais conscientes estaremos. E mais livres seremos. 

By the way: Adriane Galisteu é linda ao vivo. Mas, mais do que isso, é super simpática e uma das pessoas com maior habilidade para atender a imprensa que eu já vi. Quando eu estava espremida tentando tirar alguma aspa no meio de outros repórteres, essas qualidades me valiam bem mais do que saber quanto ela estava pesando ou o número do manequim que estava usando. Mas eu tinha que perguntar essas coisas mesmo assim, né. Ossos do ofício. 😉


REFERÊNCIAS 

Livro

Fat is a Feminist Issue (no Brasil: Gordura é uma Questão Feminista)
Autora: Susie Orbach
Ano de publicação: 1978

Reportagens

Forty years since Fat Is A Feminist Issue
https://www.theguardian.com/society/2018/jun/24/forty-years-since-fat-is-a-feminist-issue

Com manequim 36, Galisteu diz:”estou sempre querendo emagrecer”
https://www.terra.com.br/vida-e-estilo/beleza/corpo-em-forma/com-manequim-36-galisteu-dizestou-sempre-querendo-emagrecer,175b9cb25f4f0410VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html

Podcast

Se você se interessa por alimentação de uma forma mais ampla, indico muito todos os episódios do podcast Panela de Impressão, da nutricionista e socióloga da alimentação Elaine de Azevedo. É absolutamente impecável! Nesse episódio, especificamente, ela fala bastante sobre essa coisa da demonização dos alimentos que mencionei no texto de hoje: 


Foto principal: Monika Kozub | Unsplash

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