Quando a invisibilidade incomoda: o anonimato, desejado por muitos, passou algo a ser questionado
A quem interessa tornar visível alguém que não quer ser visto?
Essa foi a pergunta que muita gente se fez após a repercussão de uma matéria feita pela Reuters sobre Banksy recentemente. O artista, que há décadas é “conhecido” por conseguir preservar o seu anonimato, teria tido sua identidade revelada pela reportagem investigativa.
O bafafá foi grande nas redes sociais. Enquanto parte das pessoas condenava a investigação, argumentando que a identidade do artista seria irrelevante para quem consome sua arte; outros exaltavam o rigor jornalístico da matéria.
A repercussão foi igualmente notável: em poucas horas, a imagem de um homem de 69 anos, morador de Londres, começou a circular como se ele fosse Banksy. Posteriormente, a própria Reuters desmentiu o fato, e o homem se pronunciou, dizendo que passou a receber ligações diárias depois que sua foto começou a circular. “Eu não sou o Banksy. Sou um zelador”, justificou.
Curiosamente, vivemos uma época em que tudo o que as pessoas mais querem é ter visibilidade. A ponto de não tolerarmos (ou não entendermos) a invisibilidade de alguém.
Talvez por isso o anonimato de Banksy incomode tanto. Ele rompe com uma regra silenciosa do nosso tempo: a de que existir, hoje, é ser visto.
O desconforto com quem escapa da lógica da exposição
Como autora de um livro que fala bastante sobre o impacto das redes sociais na nossa autoimagem, sigo pesquisando o comportamento das pessoas com essa “nova” forma de encarar o mundo. Que, diga-se de passagem, mudou muito depois que fomos levados a criar essa “persona” online.
Até hoje, ainda me surpreendo quando saio inspirada de uma palestra feita por cientistas, professores ou pesquisadores e descubro que, muitas vezes, alguns deles nem têm conta no Instagram; ou, se têm, é fechada, tem poucos seguidores ou raramente é atualizada.
Por outro lado, sinto uma alegria instantânea, confesso. Fico maravilhada em perceber que o número de seguidores não dita o sucesso daquelas pessoas, não interfere em suas pesquisas ou no resultado das coisas que ela vêm plantando no mundo “real”.
É natural, portanto, que em um mundo pautado por números de seguidores, exista certa curiosidade acerca de quem inverte essa lógica. Como vivem? De que se alimentam? Como conseguem ceder à “tentação” de se tornarem visíveis e reconhecidos pelo mundo inteiro? Definitivamente, essas são justamente as perguntas que eles não fazem questão de responder.
Quando desaparecer também pode ser uma escolha
Lendo sobre o Banksy, me lembrei de um caso recente que aconteceu com a youtuber Jout Jout. Se você não era um ser digital por volta de 2015, não deve saber do que estou falando. Mas se minimamente tivesse um celular com acesso à internet nessa época, com certeza se lembra da figura em questão.
Jout Jout foi um fenômeno no Brasil, e seus vídeos no Youtube – que ela gravava no sofá de casa, filmada pelo namorado da época – atraíam milhares de views. Era gostoso de ver uma menina tão espontânea falando de assuntos sérios com leveza e um humor que ela não copiava de ninguém, era dela!
Dá pra dizer que Jout Jout foi um dos raros casos de uma quase unanimidade na Internet, com muito mais gente a exaltando do que atacando hate.
Um belo dia ela se cansou de toda essa exposição e fugiu para as montanhas. Literalmente. Ela saiu da capital e se refugiou em algum lugar por aí sem rastros aparentes.
Jout Jout conseguiu ficar anônima por quatro anos (o que, para a Internet, é quase uma eternidade); até que foi descoberta pela roteirista do podcast “De saída: a vida fora da internet”, Beatriz Trevisan, em parceria com o jornalista Chico Felitti (de “A mulher da casa abandonada”).
Nos episódios, ela conta que Jout Jout mora atualmente em uma casinha simples na roça que não tem nem mesmo água encanada. A youtuber afirma que escolheu a vida offline porque queria “focar nas relações fora da internet, no contato com pessoas reais”. E que descobriu a verdadeira felicidade na vida cotidiana. “O que eu tenho gostado mais é de ser dona de casa. Exige coragem, mas é bom demais.”
Em suma: contrariando todas as expectativas impostas pelas redes sociais, ter uma vida comum também pode ser o sonho de muita gente.
A economia da visibilidade
É compreensível que estejamos tão contaminados por essa lógica dos likes. Afinal, ser visível hoje também é um modelo de negócio.
Nesse cenário, a chamada creator economy pode chegar a US$ 480 bilhões até 2027 (hoje já está na casa de US$ 250 bilhões).
Hoje, influenciadores podem ganhar em um único post ou numa sequência de stories o que muita gente ganha em um ano de trabalho.
A mensagem é clara: a imagem não apenas comunica: ela monetiza.
Mas essa mesma visibilidade que gera valor também expõe, desgasta e, muitas vezes, descarta. Principalmente no caso das mulheres, que são alvo constante de julgamento.
No fim das contas, o que se vende como liberdade pode ser na verdade uma prisão.
E talvez seja por isso a história do Banksy ou da Jout Jout sejam tão fascinantes. Em um mundo que transforma visibilidade em moeda, escolher o anonimato é totalmente subersivo.
“Não sei por que as pessoas têm tanta vontade de expor os detalhes de sua vida privada; elas se esquecem de que a invisibilidade é um superpoder.
BANKSY
Time Out NY, 2010
Para quem quiser ir além
Se esse tema te interessa, pode gostar de se aprofundar com o meu livro Além do Like, publicado pela Editora Senac.
Nele, investigo como as redes sociais influenciam a forma como nos vemos: impactadas pela cultura das dietas e pela busca constante por “corpos perfeitos”.
Bora olhar para tudo isso com outros olhos?


