sociedade
Leave a comment

Diversidade na moda, nas telas (e na vida): será que essa pauta foi esquecida?

Modelos com corpos semelhantes desfilando na passarela, ilustrando os padrões de beleza restritos na indústria da moda

Apesar de ser cada vez mais mencionada, a diversidade ainda é restrita nas passarelas, nas telas e nas redes sociais.

Nos últimos anos, a indústria da moda e do entretenimento passou a falar cada vez mais sobre diversidade. Mas quando olhamos para as passarelas, para as telas e para as redes sociais, a sensação é de que os padrões de beleza continuam surpreendentemente restritos.

Essa semana aconteceu mais uma cerimônia do Oscar. No tapete vermelho, vimos algo que já se tornou previsível: corpos magros continuam dominando os holofotes.

Num momento em que a popularização de medicamentos para emagrecer já se tornou uma realidade, esse padrão parece ganhar ainda mais legitimidade. O que vemos na mídia tradicional e nas redes sociais acaba reforçando uma ideia muito específica e limitada de beleza.

Talvez por isso muitas pessoas (incluindo euzinha) pareçam estar um pouco enjoadas das redes sociais.

O que antes poderia servir como fonte de inspiração tem gerado, em muitos casos, uma espécie de exaustão emocional.

O relatório Social Media and Youth Mental Health, do U.S. Surgeon General, mostra que 95% dos adolescentes usam redes sociais. O hábito de comparação impulsionado por essas plataformas tem impacto direto na percepção do próprio corpo e na autoestima.

Uma saída que tem funcionado para mim é buscar inspiração fora do algoritmo. Seja na vida real; nos livros; no movimento (caminhar e andar de bike sempre me recarregam!); ou simplesmente ouvindo pessoas que tragam perspectivas diferentes sobre temas que muitas vezes são tratados de forma repetitiva e sem muito senso crítico.

Quando as redes deixam de inspirar

Foi justamente procurando inspiração fora do feed que me deparei com uma entrevista recente do estilista Ronaldo Fraga para o programa Roda Viva. Eu mesma já tive a oportunidade de entrevistá-lo há alguns anos (leia a entrevista aqui), e uma coisa que sempre me chamou atenção foi sua falta de afetação.

Num mercado frequentemente associado à superficialidade ou ao consumo desenfreado, Fraga parece genuinamente interessado em algo mais profundo. Ele fala da relação entre moda, cultura e pessoas reais.

Durante o programa, ele foi questionado sobre o aparente desaparecimento do tema diversidade de corpos na moda. E contou algo interessante sobre seu processo criativo, que vai justamente na contramão dessa lógica.

Ao criar uma coleção, Fraga busca sempre fazer um exercício: criar peças piloto e pedir que o máximo possível de pessoas da equipe experimentem, incluindo as costureiras, antes mesmo das modelos. O objetivo é garantir que a roupa funcione em diferentes corpos.

Em outras palavras, pensar na diversidade na moda não como discurso, mas como prática. Em determinado momento, ele resumiu essa ideia numa frase que me encantou.

Colagem com frase do estilista Ronaldo Fraga sobre diversidade na moda e liberdade na criação
“Se não for para libertar, não vou fazer algo que é para oprimir, para prender.” | Foto: Reprodução TV Cultura / Arte: Dani Barg

A entrevista me inspirou, embora essa visão ainda seja exceção.

Entre discurso e realidade na moda

Segundo o Vogue Business Size Inclusivity Report de 2026, modelos plus size vestiram apenas 0,9% dos looks apresentados nas principais semanas de moda internacionais, e modelos mid-size apenas 2%.

Em suma: a imensa maioria continua dentro de um padrão corporal extremamente restrito. O que chega a ser curioso, porque a própria pesquisa de mercado mostra que o público gostaria de ver essa mudança.

Um levantamento recente apontou que cerca de 60% dos consumidores consideram importante ver diversidade em campanhas, e quase metade afirma que isso influencia suas decisões de compra.

A representatividade, portanto, não é apenas uma questão simbólica. Ela também dialoga com expectativas reais de quem consome cultura, informação e produtos.

Quando a diversidade amplia a cultura

Nesse sentido, vale observar outros fenômenos culturais recentes. A ascensão global do K-pop, por exemplo, que foi reconhecida na última cerimônia do Oscar, mostra que o público está disposto a abraçar referências culturais diversas quando elas são apresentadas com autenticidade.

Diversidade não afasta audiência. Muitas vezes, ela a amplia.

É fato que a internet oferece uma quantidade enorme de informação e referências, mas isso só se torna realmente valioso quando escolhemos ativamente o que consumir.

Estamos buscando novas referências ou apenas repetindo o que o algoritmo nos entrega?

Talvez ampliar o repertório, nas nossas escolhas de consumo, nas telas e na vida, seja um pequeno gesto individual capaz de contribuir para um mundo mais diverso.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *