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O modismo da proteína: quando comer vira cálculo de novo

Mulher preparando shake de whey protein na cozinha, representando o modismo da proteína e dietas da moda.

Quando comecei a escrever sobre alimentação, lá por 2014, a moda era contar calorias. Dietas de pontos, tabelas, aplicativos, gente checando números antes de decidir o que “podia” ou “não podia” comer. 

Naquela época, já me incomodava essa redução da comida a um cálculo; e fiz muitas matérias e entrevistas defendendo que era preciso ir além das calorias e olhar para o alimento como um todo.

Colocar alguns alimentos na lista de vilões, e outros na lista de “mocinhos”, sempre foi muito lucrativo para a indústria das dietas.

Atualmente, a lógica é a mesma. Só mudou o nome do herói da vez: a obsessão agora é pela proteína (como você já deve ter notado nas gôndolas e no feed das redes sociais). 

Proteína em ultraprocessados

O objetivo deste texto não é demonizar a proteína, mas propor um exercício simples: quando entrar em um supermercado, observe a quantidade de alimentos ultraprocessados que atualmente estampam a palavra “proteico” em seus rótulos. Ou, ainda, que destacam números grandes indicando a quantidade de proteína por porção.

São barrinhas, shakes, biscoitos, cafés, sobremesas. Tem para todos os gostos. Eu moro em São Francisco, na Califórnia, e por aqui as opções de snacks com alta porcentagem de proteína são incontáveis. 

Duas barrinhas proteicas e um pedaço de queijo, representando alimentos ultraprocessados ricos em proteína e o modismo da proteína. Foto by Dani Barg.
As barrinhas ricas em proteína estão por todo canto nos escritórios aqui em San Francisco, CA. O queijo estava sendo distribuído de graça na minha academia. | Foto: Dani Barg

Ontem, andando de bicicleta pela cidade, vi um food truck que oferecia refrigerante proteico (!!!).

“Proteico” virou sinônimo de “saudável”, quase um atestado automático de qualidade. Como se comer fosse uma equação matemática, e não um ato cultural, social e afetivo.

Nas redes sociais, proteína é rainha

Desde que as redes sociais ganharam força, os modismos alimentares passaram a circular ainda mais rápido e com menos filtro. Ao mesmo tempo, nunca tivemos tanto acesso a especialistas e pesquisadores sérios. 

O desafio, hoje, não é a falta de informação, mas o senso crítico para saber onde buscar orientação antes de mudar qualquer coisa na nossa rotina alimentar.

De que adianta um alimento ter 20 g de proteína se a lista de ingredientes é quase ilegível? É fazendo esse tipo de pergunta que começamos a mudar nosso olhar sobre essas trends ligadas à alimentação. 

O problema nunca foi a proteína

Tendências alimentares vêm e vão. Com elas, novas formas de controle do corpo e o velho desejo de se enquadrar no padrão de beleza vigente acompanham o movimento. 

Esse padrão quase sempre tem a magreza como horizonte: antes, a promessa era emagrecer contando calorias; agora, ela vem embalada como proteína.

Em suma: a partir do momento em que alimentos ultraprocessados passam a ser vendidos como soluções milagrosas, perdemos de vista o verdadeiro valor da comida de verdade.

E esquecemos, até mesmo, da delícia que é ter a liberdade de comer as coisas que você mais gosta.

Da diretriz ao hype: a proteína no centro do debate

Recentemente, as novas diretrizes alimentares americanas foram divulgadas, e o foco na proteína ficou claro: a recomendação de ingestão diária praticamente dobrou.

(Aqui uma entrevista interessante com a nutricionista e pesquisadora Marion Nestle sobre a nova pirâmide alimentar americana – Science News.)

A repercussão foi grande, não apenas por se tratar de diretrizes oficiais, mas porque decisões alimentares tomadas nos Estados Unidos costumam ditar tendências e atravessar fronteiras.

Por exemplo: dietas ricas em proteína, como low carb, Atkins, cetogênica, paleo e variações, se popularizaram ao longo das últimas décadas graças à indústria fitness e à cultura pop. 

Celebridades hollywoodianas, influenciadores e reality shows foram alguns dos fatores que ajudaram a transformar a proteína no nutriente da vez. E seu consumo é frequentemente associado à alta performance e corpos “perfeitos”.

Nesse sentido, a economia surfa nessa mesma onda, como mostram os números. O mercado global de produtos fortificados com proteína, que foi estimado em US$ 67 bilhões em 2023, deve ultrapassar os US$ 100 bilhões até 2030 

Latina demais para abrir mão do meu arroz com feijão

Mas, enquanto o debate por aqui nos Estados Unidos volta a girar em torno de nutrientes isolados, o Brasil já propôs, há mais de uma década, uma outra forma de pensar a alimentação.

Em 2014, tivemos o lançamento do Guia Alimentar para a População Brasileira, um documento que segue atual justamente por ir na contramão dessa lógica. 

Este é um material que eu não canso de indicar, e inclusive cito ele no meu livro, o Além do Like, nos capítulos dedicados à cultura das dietas. O guia descomplica o qua indústria fez questão de complicar, e isso vale ouro. 🙂

Então, antes de sair gastando seu precioso dinheirinho com alimentos ultraprocessados que prometem milagres, considere voltar para o nosso brasileiríssimo arroz e feijão.

Essa dupla de sucesso nunca sai de moda entre os profissionais de saúde que priorizam e recomendam, como “remédio”, voltar pro simples: a boa e velha comida caseira.

Banner do livro Além do Like sobre a pressão estética das redes sociais, de Danielle Barg, publicado pela Editora Senac.

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