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Por que biscoitas?

Em plena pandemia, tem gente curtindo a vida adoidado e ainda pedindo biscoito na internet com fotos incrivelmente felizes, no meio da galera, de festas ou de lugares maravilhosos, o que com frequência nos faz pensar: descobriram a vacina e não nos avisaram? Não me eximo da culpa, também posto uma coisinha ou outra eventualmente. Afinal, alegria completa é alegria compartilhada, não é mesmo? Quando tem like (a.k.a, biscoito) então, vixe, aí é dopamina lá em cima.

Com tanto estímulo, fica difícil tirar o olho do celular e enxergar adiante. Mas será que, em 2020, um ano em que as pessoas estão desesperançosas e cansadas mentalmente, o “cada um por si” virou o novo normal? Ainda há espaço para a empatia nas nossas vidas, com o mundo (literalmente) pegando fogo?

Estou falando de biscoito e de empatia no mesmo texto porque acredito que uma coisa tem a ver com a outra: quando estamos determinados em conseguir nosso biscoitinho, estamos focados em nós, e não no outro. Frequentemente eu mesma me pergunto: como é que a gente se sente à vontade para postar fotos de momentos felizes ou de lugares bonitos em meio de uma pandemia? Seria uma forma de defesa? De fuga? De busca por atenção, uma vez que estamos isolados e privados da interação ao vivo?

Pelo que observo em conversas com pessoas mais próximas ou pelo desabafo de desconhecidos no Twitter, essa aparente normalidade de vidas “perfeitas” postadas nas redes tem gerado muita frustração. Muitos se sentem idiotas por ainda estar cumprindo o distanciamento social.

Ironicamente, pensar no coletivo tem sido uma tarefa solitária. 

Até porque ninguém tem as respostas sobre como lidar com tudo isso. Tampouco existe um manual de como se comportar nas redes em tempos de pandemia. Ninguém sabe mais o que é certo e o que é errado. Eu também não sei, e é por isso mesmo que tenho pensado tanto no conceito de empatia. 

Nesse artigo aqui da revista Scientific American, os psicólogos sociais Judith Hall e Mark Leary falam sobre o atual “déficit de empatia” do norte-americano. Diante de tanta polarização política, desigualdade social e racial, e de uma crise de ansiedade generalizada gerada pela incerteza, ainda tem gente que se recusa, por exemplo, a adotar um hábito tão simples quanto o de usar uma máscara em espaços públicos. 

E por mais que esse tipo de atitude possa parecer da mais alta falta de empatia, o que eles lembram nesse artigo é que a forma como cada um entende “empatia” é muito subjetivo. A definição do termo é divergente até mesmo entre os especialistas que estudam o conceito. 

Então, aquela foto ostentação no Instagram que, para você, soa uma falta de noção gigante, para o outro pode representar só mais uma foto. Ou, ainda, pode representar um desejo de negar que estamos em um ano, digamos, apocalíptico.

É o que a neurocientista Claudia Feitosa-Santana explica nessa verdadeira aula em uma live com o jornalista Mario Vitor Santos, no canal da Casa do Saber. Ela explica que pessoas que se recusam a usar máscara ou a respeitar o distanciamento social podem simplesmente estar negando a existência do problema. E isso pode até mesmo considerado uma forma de defesa. 

Muitos negam o que desconhecem, o que não é palpável – se não teve sintoma; se não viu ninguém próximo sendo infectado; se não enterrou nenhum parente, é porque provavelmente esse vírus nem é tão grave assim (“…é só uma gripezinha…”).

Para mim, é bem difícil não ficar revoltada com quem nega a ciência, mas com certo constrangimento assumo que apontar o dedo (ainda que mentalmente) tem me trazido um certo conforto. É como se eu dissesse para mim mesma: “continue assim, garota, você está no caminho certo, eles é quem estão errados.”

Mas Claudia enfatiza que julgar o comportamento alheio também pode ser considerado falta de empatia. Vamos imaginar que fulano ficou muito bravo porque viu que sicrano estava lá, vivendo la vida louca e postando como se não houvesse o amanhã (sendo que pode não existir mesmo). Fulano vai pro Twitter, xinga muito. Ou então vai na foto do sicrano e faz um comentário atacando. O negacionista pode se sentir confrontado ou criticado, ficar p*to, e, assim, se fechar ainda mais nas suas crenças. Resumindo: a discussão não avança. Todos perdem. 

É um paradoxo, e não existe uma fórmula simples para não se estressar julgando os outros, ou para não se sentir julgado. Talvez o “cada um por si” faça sentido nesse momento. Vai lá e faz sua parte, bem feitinha, que já estará contribuindo para uma sociedade menos narcisista e egocêntrica.

Epidemia da desinformação

Vale lembrar que o compartilhamento de fake news polariza ainda mais o mundo entre os que negam a pandemia versus os que seguem os protocolos de saúde. 

É irônico que, com todo o acesso à informação que temos hoje em dia, muitas vezes nos sintamos perdidos e desinformados. O básico todo mundo já sabe de cor: use máscara, evite aglomerações, lave bem as mãos. Mas , tirando essas três regras, as demais decisões individuais dependem de fatores econômicos, sociais, emocionais…assim como tudo na vida.

Certamente a pandemia trouxe uma série de desafios psicológicos com os quais não estávamos preparados para lidar, mas alguns comportamentos já existiam e só ficaram mais visíveis agora, um momento que estamos todos exaltados – e exaustos. 

Como a própria Claudia fala nessa live:

“As pessoas desesperadas por quererem aparecer nas redes sociais não é um evento exclusivo da pandemia.”

Claudia Feitosa-Santana

Ou seja, sempre foi assim. É que esse esforço por demonstrar normalidade ou escancarar uma aparente vida perfeita no Instagram parece um pouco mais bizarro em um ano como 2020.

Muitos podem pensar: se não estou conseguindo lidar com as minhas próprias emoções, como é que vou pensar no outro? Como é que vou ser empático? É compreensível pensar dessa forma. 

Até porque, somos incoerentes, somos humanos. Em uma semana em que estamos mais preocupados com nossos pais, avós, irmãos, cônjuges, filhos, amigos, cachorros, é natural sentir raiva ao ver a foto “vida perfeita” de alguém no feed. 

Mas na semana seguinte, quando enfim reunidos com nossos pais, avós, irmãos, cônjuges, filhos, amigos, cachorros; e certos de que todos estão bem “apesar de 2020”, pode ser que surja uma vontade enorme de postar uma foto feliz. E pode ser até que um biscoitinho aqui, outro ali, torne a realidade desse ano difícil um pouco mais doce. 


REFERÊNCIAS
The U.S. Has an Empathy Deficit
https://www.scientificamerican.com/article/the-us-has-an-empathy-deficit/

How to Tell If Socializing Indoors Is Safe
https://www.theatlantic.com/politics/archive/2020/10/it-safe-have-dinner-together-inside/616568/ 

Live da Casa do Saber: Neurociência: Negação e Empatia na Pandemia
https://youtu.be/ND9Iwue4_24

Empatia: Capacidade natural e competência | Claudia Feitosa-Santana
https://youtu.be/8Hx0HXc_-Ik

Empatia | Nerdologia Ensina 12
https://youtu.be/5XaURR-qMPU


Foto principal: Michael Oxendine | Unsplash


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